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Forum Home > MiniContos > Sticky: O ESTRANHO ENXADRISTA ( 1996 )

Andre Enrico
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O Clube de Xadrez da região de Brent, em Londres, ocupa três andares, sendo um dedicado ao xadrez, outro ao jogo de cartas e um terceiro, que contém uma lanchonete, ao bilhar unissex. O exótico jovem apresentou-se, numa noite enevoada de terça-feira, no outono de 1994. Envergava um traje que teria sido muito elegante... na década de 20 e falava um inglês correto, embora com sotaque americano. Pediu para visitar o clube e o fez como perfeito gentleman. Indagado, apresentou-se apenas como José, na pronúncia espanhola. Sendo considerado um provável visitante norte-americano, permitiu-se-lhe que se sentasse à mesa de bridge. Naquela noite, o visitante derrotou os mais experientes amantes desse jogo. No dia seguinte, revelou-se ainda superior no bilhar. Seu taco era o de um virtuose.

Na quinta-feira, dirigiu-se ao secretário do Chess Club, Mr. Henderson e solicitou-lhe, com fineza, a possibilidade de jogar xadrez com os mais fortes elementos do clube. Henderson, que vencera o torneio de Londres, disse estar ocupado, mas José propôs 5 minutos seus contra 15 do secretário e este não teve como recusar. Jogando com incrível rapidez, o desconhecido venceu Henderson quatro vezes consecutivas. Isto, apesar de que suas aberturas com brancas, suas defesas com pretas e seu estilo (lances em posições conhecidas) fossem antiquados como a sua roupa, ambos numa linha anterior à 2a Guerra. Outros enxadristas se aproximaram, curiosos, e foram derrotados com a mesma facilidade.

Ao final, José pediu, sempre cavalheirescamente, a oportunidade de jogar uma simultânea no clube, para o domingo seguinte. Foi então que o presidente da entidade, Mr. Gallagher, começou a prestar atenção no homem e a ligar os fatos. Gallagher, de 73 anos, era tido, pelos mais jovens, como grande conhecedor da história do xadrez, da qual ele era, inclusive, um participante. Ouviram-no murmurar: "Meu Deus, que semelhnça tem com ele!" José enfrentou 37 tabuleiros, entre os melhores do clube, empatando duas partidas e vencendo 35. Durante oito horas, não dissera uma palavra, não se movera na cadeira, não havia tomado, sequer, um copo de água. No final, entre aplausos, o vencedor cumprimentou a todos e despediu-se, informando apenas -- a instância dos presentes -- o hotel em que se achava.

Os enxadristas cercaram Mr. Gallagher : "Quem é ele, Sir, ou com quem se parece?" "Com José Raúl Capablanca, o cubano", respondeu o presidente. "Mas Capablanca morreu em 1942, em Nova Iorque," riram alguns. "É verdade -- continuou Gallagher -- Ele aparece em 1911, com 12 anos de idade. Em 21, vence Lasker e é campeão mundial. Em 1924, Capablanca já tinha participado de 99 matches e torneios, perdendo somente um. Foi considerado o melhor de todos os tempos, no xadrez-relâmpago.Ele falava diversos idiomas e era excelente no bridge, no bilhar, no tênis e no beisebol. Foi um grande esportista e um maior artista, que o xadrez é uma arte, antes de qualquer outra coisa." "E quanto ao título mundial ?"

Gallagher prosseguiu : " Seu desafiante foi Alekhine e a disputa ocorreu em Buenos Aires, em 1927. Era de se verem os dois maiores do mundo, sentados, frente a frente, por três meses. Suas personalidades eram radicalmente opostas. Capablanca era esportista, elegante, cavalheiro e bem-quisto por quem quer que o conhecesse. Romain Roland, escrevendo sobre Beethoven, afirmou que, se ele não fosse músico, poderia ser, com o mesmo valor, poeta ou escritor (ao contrário de outros músicos, Beethoven só se definiu totalmente pela música aos 16 anos). Pois o mesmo se dizia de Capablanca, em uma série de esportes. Seu carisma era enorme. Certa vez, ele deveria jogar uma simultânea e estava atrasado, o que não era raro. Um senhor pediu a um aficionado que lhe avisasse quando chegasse o campeão, porque ele viera apenas para conhecê-lo. O consultado lhe respondeu : "Não se preocupe que, quando Capablanca chegar, o Sr. perceberá que é ele o campeão. Particularmente, em relação ao basebol, comenta Edward Lasker ( A Aventura do Xadrez ) que, quem o visse jogar, logo pensaria na frase de Disraeli : "Jovem, sua proeza neste jogo revela uma mocidade desperdiçada." Como Capablanca tinha colocado Cuba no mapa, o governo lhe deu um cargo muito livre no Ministério do Exterior."

A pedidos, o presidente do Brent Chess Club passou a falar de Alexander Alexandrovich Alekhine : "Era em tudo uma outra personalidade. Até quanto se soubesse, tinha um cérebro exclusivamente voltado para o xadrez. Seu mau caráter lhe acarretava antipatias gerais. O pouco que se sabe de sua vida também. Volto a citar o livro de Edward Lasker :" Quando irrompeu a revolução, ele servia com o Corpo de Serviço Secreto do Exército Russo Branco, em Odessa. Os bolcheviques capturaram a cidade e ele se declarou "libertado", passando a trabalhar como espião para os vencedores. Quando os russos brancos reconquistaram Odessa, Alekhine declarou-se novamente libertado e ofereceu-se para o serviço de contra-espionagem. Finalmente, o Exército Vermelho prevaleceu......

........................................................(Alekhine) em circunstâncias comprometedoras, praticamente coagiu uma jovem estrangeira a casar-se com ele. Obteve, assim, permissão para viajar em direção ao exterior. Logo que o trem atravessou a fronteira russa, abandonou sua esposa -- e seu filho pequeno -- informando-a rudemente de que a utilizara apenas com a finalidade de sair da Rússia. A propósito, essa foi a única mulher jovem com que se casou. Todas as suas esposas subsequentes -- e foram três -- eram, pelo menos, 25 anos mais velhas do que ele. Além de Baco, Édipo deve ter estado entre seus antepassados." "

Gallagher encerrou : "O match de Buenos Aires terminou com a vitória de Alekhine por 6 vitórias, 3 derrotas e 25 empates. É uma regra que o campeão derrotado tenha direito a revanche. Mas Alekhine, russo, naturalizado francês foi conseguindo adiá-la, com múltiplas alegações. Os preparativos bélicos da década de 30 foram dificultando o novo encontro e favorecendo Alekhine. Finalmente, a Guerra o impediu de vez. O campeão mundial morreu em 46, num hotel de Lisboa, com uma espinha de peixe que lhe atravessou e entupiu a garganta."

A essa altura, Phill Braddock, campeão da zona leste de Londres, voltou a falar de José, pensando em Capablanca : "Que alguém o imite, eu chego a compreender, mas ... como pode esse alguém ser tão hábil?" Desceram à garagem do prédio, tentando, ainda ver se

encontravam notícias do misterioso personagem. O porteiro declarou que ele tinha partido, num carro impecável, mas que ele jamais vira anteriormente. Os jogadores subiram ao clube e telefonaram para o hotel. "Mr. José ainda está? "Não, já deixou o hotel -- respondeu o encarregado da reception desk -- Segundo um hóspede entendido em automóveis, ele se foi num Bugatti 1927" "Não deixou um cartão? O nome completo? Não falou para onde ia?"

"Bem -- informou o funcionário -- Quando tomou do chapéu e da bengala, comentou : "Agora, vou enfrentar Alekhine. É. Acho que foi esse o nome, Sr." "

(Livro : Minicontos Fantásticos III )

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July 5, 2012 at 8:50 PM Flag Quote & Reply

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